Hungria desliga única usina nuclear por seca no Danúbio
A Hungria desliga no domingo a usina nuclear de Paks, a única do país, pela primeira vez em 44 anos. O Danúbio, que resfria os quatro reatores, caiu abaixo do nível mínimo de operação. Saem da rede 2.000 megawatts, mais de 40% da capacidade de geração húngara, e o governo passou a cortar energia de grandes consumidores por decreto.
Por que a seca desliga uma usina nuclear
Paks bombeia água do Danúbio para resfriar seus quatro reatores. Com o rio baixo, as bombas deixam de puxar volume suficiente e a central não tem como operar. A causa apontada é a água de resfriamento. Nenhuma das coberturas relata falha nos reatores.
A usina gerava 965 megawatts na sexta-feira e 240 megawatts na madrugada seguinte, contra 2.000 em operação normal. O primeiro dos dois reatores que ainda rodavam parou à 1h30 de domingo, e o último sai no mesmo dia.
O Firstpost é o único veículo do levantamento que publica os números do rio: 134 centímetros seria a marca que obriga a parada total em Paks, com projeção de chegar a 144 e recorde anterior de 98, em 2018. A reportagem não deixa claro o sinal das medidas, e nenhuma das outras coberturas traz o dado para conferência.
Quanto Paks pesa na eletricidade da Hungria
A usina de Paks responde por mais de 40% da capacidade de geração da Hungria, segundo a Bloomberg, ou por quase metade da eletricidade consumida no país, segundo o Firstpost. As duas contas medem coisas diferentes e nenhuma cobertura as reconcilia.
A central data do período soviético, tem quatro reatores e fica ao sul de Budapeste. O primeiro-ministro Peter Magyar avisou que ela pode ficar parada por semanas. Ninguém arrisca data de retorno.
A conta chega pela importação. Mark Radnai, vice-presidente do Tisza, partido de Magyar, calculou em publicação no Facebook um custo de 100 bilhões a 200 bilhões de forintes, de 315 milhões a 630 milhões de dólares, pelo preço da eletricidade comprada fora. A economia húngara cresceu menos que o previsto no segundo trimestre, depois de três anos parada.
Quem é cortado primeiro no racionamento húngaro
A Hungria escreveu em decreto a ordem de quem perde energia: primeiro os grandes consumidores, por último as residências.
O gabinete edita decreto pedindo redução voluntária de consumo dos grandes usuários, somada aos 240 megawatts de corte já acertados, com multa para quem não bater a meta. O mesmo texto autoriza a MAVIR, operadora da rede, a exigir redução obrigatória e a desligar temporariamente certos consumidores grandes. Magyar diz que as residências são as últimas da fila.
Na demanda pública, o transporte de carga por ferrovia para entre 15h e 20h a partir de segunda-feira, o funcionalismo trabalha de casa nos três primeiros dias da semana, e refletores e iluminação não essencial de prédios públicos ficam apagados. A Bloomberg registra que o plano de emergência preserva serviços como hospitais, e que a lei para transformar corte voluntário em obrigatório já passou. Quem a aprovou, a cobertura não diz.
Na oferta, engenheiros recuperaram 360 megawatts perdidos por falha na maior termelétrica a gás do país, em Szazhalombatta, e Magyar disse no mesmo dia que ainda faltavam medidas para aliviar a rede.
A Eslováquia ofereceu ajuda. O primeiro-ministro Robert Fico chamou a situação de crise energética sem precedentes e informou que as usinas nucleares eslovacas rodam na capacidade planejada. Nenhuma cobertura detalha em que consiste a ajuda.
Nenhuma cobertura ligou o caso a data center
Nenhuma das coberturas apuradas sobre o desligamento de Paks menciona data center, carga de computação ou inteligência artificial. As três vozes independentes deste levantamento, mais o veículo que republicou uma delas, trataram o assunto como notícia de clima e de rede elétrica. As reportagens nomeiam dois tipos de grande consumidor: montadoras e fábricas de bateria.
A omissão vale por si. O decreto húngaro não pergunta para que serve a eletricidade, pergunta quanto ela puxa. Entra na fila de corte quem tem carga grande, e o executivo montou essa fila em dias, com multa embutida.
Nada no material apurado indica que a Hungria abrigue carga de computação relevante. O caso registra outra coisa: uma rede europeia perdeu a base de geração por causa do nível de um rio, e o Estado ganhou poder legal de desligar consumidor grande. Quem contrata energia para operação pesada passa a ter uma pergunta a fazer ao fornecedor, que é em que posição da fila de corte ela entra.
O que mais a seca atingiu na Hungria
Mais de 100 cidades e vilarejos húngaros estão sob restrição de uso de água, incluindo áreas na periferia de Budapeste. A seca também atrapalhou navegação, turismo, agricultura e indústria.
Na sexta-feira, milhares de moradores de Szentendre, às margens do Danúbio ao norte de Budapeste, ficaram sem água por sobrecarga de demanda. O Exército mandou dois caminhões-pipa e distribuiu 7 mil sacos de água. O governo começa agora a reforma adiada da rede de irrigação do país.
O Danúbio corre da Alemanha ao Mar Negro e é um dos rios europeus afetados por meses de calor e seca. O Firstpost cita o grupo World Weather Attribution, para quem as temperaturas recordes do continente têm causa humana. As demais coberturas descrevem o calor sem atribuir causa.
--- Apurado em 5 veículos de 4 países.